O DESMANCHE CULTURAL DO RIO DE JANEIRO
Foto ilustrativa - Cristo Redentor de Romeo Zanchett -
(pintura acrílica)
O Rio de Janeiro como centro cultural do país vem
perdendo espaço desde a Semana de Arte de 1922. Pessoas
importantes da cultura carioca como Cecília Meireles, Hermes Lima,
Di Cavalcanti e Cândido Portinari foram perseguidos porque lutavam
por esta centralidade. Muitos artistas mudaram para São Paulo
e o próprio Cândido Portinari acabou candidatando-se a Senador
daquele estado.
Depois da Segunda Guerra Mundial, Chateaubriand llutou
muito pela arte pedindo ajuda aos empresários e praticamente só os
paulistas apoiaram. As obras conseguidas passaram a ser acervo do
MASP.
O Rio, não por iniciativas públicas, mas sim populares,
reagiu com o Samba e a Bossa-Nova. O CPC da UNE abriu espaços para
o Cinema Novo, mas com o regime autoritário, novamente foi
prejudicado.
Com a eleição de César Maia no ano 2000, voltamos a ter
esperança depois de sua decisão de investir na construção de bons
equipamentos públicos que viabilizassem a recuperação da
centralidade cultural da nossa Cidade Maravilhosa.
Parte da promessa foi cumprida com a criação de diversos
equipamentos como: Cidade do Samba, Circo Voador, Engenhão, Arena,
Parque Aquático, Velódromo, Centro de Coreografia, Centro de
Convenções da Cidade Nova, Centro de Referência da Musica, Centro
de Tradições Nordestinas, Cidade das Crianças, Planetário de Santa
Cruz, 10 Vilas Olímpicas, 10 Lonas Culturais, Rede de 10 Teatros
que tinha sido iniciada em 1994, Parque da Visinhança de Deodoro,
Reconstrução do Centro Esportivo Miécimo da Silva com o Ginásio
Algodão, Centro Cultural Princesa Isabel em Santa Cruz, Museu Helio
Oiticica, entre outros.
A experiência internacional indica que a recuperação da
centralidade cultural de uma cidade passa pela existência de
equipamentos de alta qualidade.
Na eleição de 2000 nos foi prometido também um grande
equipamento que seria o Museu Guggenheim que acabou sendo impedido
por ação judicial da oposição. Tal fato se deu devido,
principalmente, por uma forte pressão de parte da imprensa
estimulando uma oposição que impediu a realização do tão sonhado
museu e, como sempre, a cidade saiu perdendo.
Na tentativa de criar o equipamento centralizador o
Museu de Artes Plásticas foi substituido por um Centro de Artes,
-cujo projeto foi confiado ao consagrado arquiteto Christian
Portzamparc- e assim nasceu a Cidade da Música.
Com o final de mandato e a obra ainda por acabar, o
então prefeito inaugurou o grandioso equipamento sob severas
críticas de parte da imprensa que assumiu para si a função de criar
opinião pública contra o projeto. Com o processo eleitoral em
andamento a oposição aproveitou a oportunidade para críticas
demagógicas que nada mais fazem do que prejudicar ainda mais a
cultura da nossa cidade.
Enquanto isso, em São Paulo constroi-se o sofisticado
Museu da Língua Portuguesa e o grandioso Museu do Futebol. Em
Vitória-ES. está sendo construido um Centro Cultural
Múltiplo.
No Rio, com a nova administração eleita, inicia-se o
desmanche cultural.
Fala-se muito sobre a importância do Rio de Janeiro
sediar grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas
pensa-se pequeno.
Sabemos que nossa cidade tem grande importância no
cenário turístico mundial e é exatamente por isso que precisamos
equipamentos de nível internacional.
Para atingir mortalmente a centralidade cultural da
cidade o novo prefeito resolve paralizar as obras da Cidade da
Musica e inicia uma suspeita e apressada auditoria. Tudo é feito a
"toque de caixas".
Na condução do processo o promotor encarregado tira
férias e o seu substituto conclui tudo, sem depoimentos, sem
perícias e rapidamente envia para o TJ. Uma atitude bem
estranha.
Pode-se compreender que a nova administração da
prefeitura faça as tais auditorias, mas não havia necessidade de
paralizar as obras, pois as auditagens são feitas em cima de
documentos.
Se existirem defeitos na obra são de responsabilidade
dos construtores e devem ser cobrados.
É um absurdo que as auditorias até tenham chegado a
valores para concluir a obra. Esta não é sua função. Os
valores estão consignados e não será quem contratou que dirá se
faltará dinheiro ou não. Isto, se houver, é um problema dos
construtores e nunca de quem contratou.
Com a paralização da obra haverá deterioração da parte
já construida e este será um inquestionável argumento para as
construtoras exigirem aditivos adicionais com aumentos
imprevisíveis.
A nova administração da prefeitura, na pressa de criar
uma polêmica demagógica, esqueceu-se de que a responsabilidade pela
paralização é sua e que no futuro lhe será cobrado qualquer valor
que esta atitude insana tenha ocasionado.
Equanto a Cidade da Música se deteriora os governantes
brincam com o dinheiro público gastando milhões para criar "guetos"
murando algumas favelas da zona sul. Além disso, querem
gastar cerca de 730 milhões de reais apenas para reformar o
Maracanã. Toda essa polêmica é fumaça nos olhos dos cariocas que
são os verdadeiros donos e pagadores. A Cidade da Música virou "boi
de piranha" para a campanha eleitoral de 2010.
Como carioca de coração me sinto lesado e como artista
plástico fico triste de ver que a demagogia mais uma vez impede que
o Rio volte a ser o Centro Cultural do Brasil.
Nicéas Romeo Zanchett - artista plástico
http://www.artmajeur.com/niceasromeozanchett